A temporada de 2026 marca um dos capítulos mais importantes da nova geração do motocross brasileiro. Bernardo Tibúrcio, um dos jovens talentos mais promissores do país, inicia sua jornada internacional rumo à Europa para disputar, pela primeira vez, o Campeonato Europeu e o Campeonato Espanhol de Motocross agora com novo numeral #83 mas ainda sim levando o conceituado número 3 anexado ao plate. Em busca de elevar ainda mais o seu nível técnico, competitivo e pessoal, o piloto encara o maior desafio da carreira com o objetivo claro de evoluir entre os melhores do mundo e colocar, mais uma vez, o Brasil em evidência no cenário global do motociclismo off-road. Nesta entrevista exclusiva ao Show Radical, Bernardo abre o jogo sobre decisões, bastidores, expectativas e os próximos passos dessa missão internacional.
SR:
Primeiramente, Bê, muito obrigado pela oportunidade de trocar essa ideia conosco aqui no Show Radical. Tivemos a honra de acompanhar a sua trajetória desde as categorias de base, ainda na 50cc, quando registramos inúmeras imagens suas na Copa Minas Gerais de Motocross. Depois vieram o Arena Cross, o BRMX e, ao longo desse caminho, o Show Radical se consolidou como a principal mídia do motociclismo off-road no Brasil, enquanto você se firmou como um dos maiores talentos da nova geração do esporte nacional.
Diante disso, gostaríamos que você comentasse: em que momento você passou a se enxergar como um piloto profissional de motocross? Desde cedo o foco já era uma carreira internacional ou, inicialmente, o objetivo era se tornar referência no Brasil? Essa decisão partiu mais de você ou do seu pai, que sabemos ser um dos grandes incentivadores da sua carreira?
BE:
Cara, primeiro eu que agradeço ao Show Radical. Vocês fazem parte da minha história desde muito cedo, então é especial demais poder sentar e trocar essa ideia agora, em um momento tão importante da minha carreira.
Sobre quando eu me vi como piloto profissional, isso foi algo gradual. Lá atrás, na 50cc, a ideia era me divertir, aprender e competir. Nunca foi um plano definido. Mas, conforme os resultados começaram a aparecer, fui entendendo que aquilo poderia, sim, se tornar uma profissão. A virada de chave aconteceu quando percebi que eu não queria apenas “andar bem”, eu queria viver disso.
O sonho internacional sempre existiu, mas era apenas isso: um sonho, algo que parecia distante. Meu objetivo inicial era me consolidar no Brasil, conquistar títulos e ser competitivo aqui. Meu pai teve um papel fundamental em todo esse processo. Ele sempre acreditou muito em mim, foi meu maior incentivador, mas nunca houve pressão. As decisões sempre foram muito conversadas. Ele me orientava, mostrava os caminhos possíveis, mas a vontade de seguir adiante sempre partiu muito de mim.
SR:
Dando continuidade a esse raciocínio, você sempre teve uma relação próxima com Fábio Santos, hoje um dos principais nomes do motocross brasileiro na categoria principal. Ele construiu uma trajetória sólida no Brasil, optando por não seguir uma carreira internacional fixa, embora seja o brasileiro com mais participações na história do Motocross das Nações. Como você enxerga esse caminho diferente que ele escolheu?
Colocando na balança aspectos como carreira esportiva, financeiro, visibilidade pública, amadurecimento pessoal e experiências de vida, como você avalia essas duas escolhas distintas e de que forma isso influencia as suas próprias decisões?
BE:
O Fábio é uma referência enorme para mim, não só como piloto, mas também como pessoa. A trajetória que ele escolheu é muito sólida e extremamente respeitável. Ele mostrou que é possível construir uma carreira vencedora, estável e com grande reconhecimento permanecendo no Brasil. Financeiramente e em termos de visibilidade nacional, ele fez escolhas muito inteligentes.
Já o caminho internacional traz outros tipos de desafios, como amadurecimento pessoal, adaptação cultural, pressão constante e um nível técnico extremamente alto. Não acredito que exista certo ou errado; são escolhas diferentes, que impactam a carreira de formas distintas.

SR:
Desde a sua entrada na KTM Brasil, ao lado de Antonio Jorge Balbi Jr., você apresentou uma evolução constante. Posteriormente, seus dois últimos anos defendendo a Honda Racing Brasil foram extremamente positivos em termos de resultados e desempenho. Mesmo assim, você decidiu dar um novo passo na carreira. Em que momento dessa trajetória surgiu a convicção de que era hora de sair do Brasil? O que, de fato, aconteceu nesse período para que você pensasse: “agora é o momento de buscar algo maior fora do país”?
BE:
Esse sonho de sair do Brasil não veio de um dia para o outro, foi sendo despertado ao longo dos anos. Mesmo tendo dois anos muito positivos na Honda Racing Brasil, eu sentia que precisava de um novo estímulo. As experiências internacionais que tive, mesmo que pontuais, me mostraram que eu tinha capacidade para andar no ritmo, aprender rápido e evoluir.
Chegou um momento em que eu pensei: se eu não tentar agora, talvez nunca tente. Foi mais um sentimento interno de que eu precisava sair da zona de conforto e buscar algo maior para a minha carreira.
SR:
Recentemente, vimos o anúncio oficial da sua nova equipe, a Yamaha 115 M78, um projeto audacioso liderado por Carlos Campano na Europa, com suporte direto da Yamaha do Brasil. Há quanto tempo esse projeto já vinha sendo trabalhado nos bastidores? Durante o Motocross das Nações, foi possível notar uma grande proximidade entre você e o Campano, mesmo enquanto você ainda defendia a Honda Racing Brasil. Já existiam conversas ou era apenas uma aproximação natural naquele momento?
BE:
Durante o Motocross das Nações, nos Estados Unidos, em Ironman, a aproximação com o Campano foi muito natural, até porque ele fazia parte da comissão brasileira. A gente trocava ideias, conversava bastante sobre as corridas e estratégias de equipe, junto com o Fábio e o Enzo, que também integravam o time brasileiro.
Em relação ao projeto Yamaha 115 M78, as conversas mais concretas aconteceram após o Nações, quando tudo começou a se alinhar: o momento da minha carreira, a estrutura da equipe, o suporte da Yamaha Brasil e, principalmente, um projeto que realmente acreditou no meu potencial.

Quando percebi que não era apenas uma oportunidade pontual, mas sim um plano bem estruturado e com visão de futuro, tive a certeza de que fazia sentido dar esse passo.
SR:
Falando agora sobre a parte técnica, você passou grande parte da sua carreira competindo com motos austríacas e, posteriormente, com a Honda. Sabemos que, na Honda Racing Brasil, você contou com uma CRF extremamente competitiva, praticamente um “canhão”, além das experiências com motos muito bem preparadas em competições internacionais. Com todo esse know-how acumulado, o que você pode nos dizer sobre a Yamaha YZ250F, que já vem sendo testada tanto no Brasil quanto na Europa desde o anúncio do novo time?
BE:
A Yamaha YZ250F me surpreendeu bastante. Eu vinha de motos muito competitivas, principalmente a CRF, que realmente tinha um nível altíssimo de preparação. A YZ é uma moto diferente, com um conceito próprio, mas muito equilibrada. Desde os primeiros testes, tanto no Brasil quanto na Europa, senti uma base muito boa, fácil de ajustar e que permite explorar bastante o meu estilo de pilotagem. Ainda estamos em fase de evolução, mas o potencial é enorme.
SR:
Seus fãs e seguidores comentam com frequência, especialmente nos vídeos de treinos, que você aparenta estar ainda mais rápido na nova moto. Você sente essa evolução na prática? Já realizou comparativos objetivos em pista ou acredita que, por enquanto, essa percepção seja mais visual do que técnica?
BE:
Tenho visto bastante esses comentários e fico feliz, porque mostra que as pessoas estão acompanhando de perto, mesmo eu estando longe. Mas, sendo bem honesto, ainda é muito cedo para cravar qualquer coisa nesse sentido. Estou em uma fase de adaptação, conhecendo melhor a moto, ajustando detalhes, testando diferentes equipamentos e entendendo como extrair o melhor conjunto possível.

Só com o tempo, andando em pistas diferentes, enfrentando condições variadas e competindo de fato, é que vou ter essa percepção mais técnica.
SR:
O encerramento desta temporada trouxe uma série de notícias que movimentaram intensamente o cenário off-road, tanto no Brasil quanto fora dele. O Show Radical completa 19 anos de atuação, sendo os últimos nove com forte presença e interação no mercado internacional, acompanhando de perto os grandes campeonatos mundiais. Ainda assim, nunca tínhamos visto uma recepção tão expressiva por parte do MXGP e da mídia europeia a um piloto latino como estamos vendo no seu caso. Como está sendo vivenciar esse reconhecimento e essa projeção internacional logo no início da sua jornada na Europa?
BE:
Eu também me surpreendi, para ser bem sincero, e está sendo algo surreal. Não imaginava uma recepção tão grande logo no início. Ver a mídia europeia, o MXGP e as pessoas reconhecendo meu trabalho dá um gás enorme, mas também aumenta a responsabilidade. Procuro manter os pés no chão, entender que isso é apenas o começo e que o verdadeiro trabalho acontece diariamente, dentro e fora das pistas.
SR:
Uma dúvida recorrente entre os fãs brasileiros é a seguinte: considerando que você conta com o suporte da Yamaha Brasil, existe a possibilidade de, em alguma brecha do calendário internacional, disputar provas no Brasil para medir sua evolução frente ao gate nacional?
BE:
Existe, sim, essa possibilidade. Nada está fechado ainda, porque o foco principal é o calendário internacional, mas, se surgir uma brecha e fizer sentido em termos de preparação e logística, eu gostaria muito de correr no Brasil. Seria uma boa oportunidade para medir essa evolução e também para estar mais próximo do público brasileiro.
SR:
Falando agora da parte pessoal, sempre acompanhamos uma forte presença da sua família ao seu lado. Seus pais, seu irmão — que também retornou recentemente às competições — sempre estiveram muito próximos da sua carreira. Como ficam os planos familiares para essa nova fase? Você irá se mudar sozinho para a Europa ou parte da família permanecerá com você de forma integral? E, emocionalmente, como essa mudança impacta o seu dia a dia?
BE:
A família sempre foi a minha base. Neste início, a ideia é que eu vá inicialmente sozinho, até me adaptar totalmente à rotina, aos treinos e à vida na Europa. Depois, vamos ajustando isso. Emocionalmente, é um desafio grande, mas me sinto preparado para enfrentá-lo. Saber que eles estão comigo, mesmo à distância, faz toda a diferença. Além disso, estou cercado de pessoas muito boas, como o Carlos e o Miguel, que estão me dando todo o suporte necessário.

SR:
Para encerrar esse bate-papo, deixamos o espaço aberto para você se expressar diretamente com toda a galera que acompanha sua trajetória desde as 50cc pelo Show Radical. Aproveitamos também para adiantar que estaremos na Europa em 2026 para mostrar de perto essa sua missão internacional, algo que já faz parte do nosso calendário oficial de cobertura.
BE:
Quero agradecer de coração a todo mundo que me acompanha desde lá das 50cc, principalmente a galera do Show Radical, que sempre acreditou em mim e mostrou o meu trabalho. Essa nova fase é um sonho, mas também uma missão. Vou dar o meu máximo para representar bem o Brasil lá fora.
E saber que vocês estarão na Europa em 2026, acompanhando tudo de perto e levando cada detalhe para o Brasil, torna tudo ainda mais especial. Obrigado a todos que fazem parte dessa caminhada.
Conto com a torcida e o apoio de todos nesta nova fase.
Valeu, Brasil. Valeu, Show Radical.












