O Show Radical vem acompanhando, passo a passo, os desdobramentos da crise e da reestruturação da KTM. Cada sinal, cada comunicado parcial, cada movimentação da Pierer Mobility AG foi lido e compartilhado com atenção por aqui.
Agora, no dia 25 de julho de 2025, foi divulgado um novo comunicado oficial com dados preliminares do primeiro semestre. Ele marca, pela primeira vez, a afirmação objetiva de que a empresa busca reposicionar o seu posto institucional diante do mercado.
E a seguir, explicamos o que o recente relatório realmente informa — e o que ele ainda não responde.
Vamos lá?
O que aconteceu: Após meses de especulação, a KTM emitiu um novo comunicado oficial que marca, pela primeira vez, um sinal claro de estabilização. A empresa atravessou um dos períodos mais delicados de sua história recente — com cortes significativos, produção reduzida e uma desaceleração visível na linha de montagem. Agora, os primeiros indicadores apontam para um reposicionamento técnico: a KTM volta ao grid, com estrutura mais leve e capacidade de resposta ajustada.

No vocabulário das grandes corporações, isso significa que ela renegociou dívidas, reduziu custos fixos e reposicionou a operação. Mas, antes de concluir que a fase crítica foi superada, é fundamental compreender o que exatamente esses números revelam — e o que ainda permanece em aberto.
Vendas caíram, mas os estoques esvaziaram
A KTM vendeu cerca de 85 mil motos no primeiro semestre de 2025. No ano passado, foram quase 150 mil no mesmo período. Uma queda de mais de 40%. A receita total (dinheiro que entrou) caiu quase 60%. Mas essa retração foi arquitetada: parar um pouco, entregar menos, reorganizar os estoques e tentar sair do sufoco com menos peso nas costas.
Por outro lado, as motos que chegaram até os clientes finais ultrapassaram as 100 mil unidades. Isso mostra não só que a procura ainda existe, mas que existe uma real fidelidade e engajamento de marca. O problema parece claro: foi mais dentro da empresa do que nas lojas revendedoras.

Contabilidade para não contadores
Segundo o comunicado da Pierer Mobility AG divulgado em 25 de julho de 2025, todos os números ainda são preliminares e não auditados. Você pode conferir o documento oficial neste artigo. Ainda assim, dois pontos já chamam atenção:
A dívida líquida foi reduzida em mais da metade — de € 1,643 bilhão para € 756 milhões;
E a empresa registrou um lucro de reestruturação de € 1,187 bilhão, relacionado a 70% das reivindicações de credores.
Esse lucro de reestruturação é, tecnicamente, um alívio contábil: a empresa conseguiu negociar parte do que devia e registrou essa redução como um tipo de vitória, um tipo de ganho. Isso é permitido pelas normas internacionais, mas não significa que entrou dinheiro novo no caixa.
É como numa corrida de MX: ninguém da equipe cruzou a linha de chegada mais rápido — mas evitou a quebra no meio no curso do traçado e garantiu alguma pontuação no final da etapa. Um movimento técnico, importante, mas que não diz tudo sobre o campeonato.

Muita gente foi demitida, e os investimentos travaram
A empresa cortou quase 30% dos empregos. Mais de 1.700 pessoas perderam seus postos. E o dinheiro que iria para novos investimentos (como máquinas, pesquisas, fábricas) foi reduzido em 75%. Ou seja, o momento ainda é de contenção. A KTM segue operando, no modo absolutamente econômico.
O papel da Índia nessa história
Uma parte importante da sobrevivência da KTM veio da Índia. A Bajaj, uma das maiores empresas do setor por lá, é uma associada significativa (em várias camadas, sabemos): vendeu quase 35 mil motos KTM só na Índia. Esse é um ponto de apoio importante.
Enquanto a Europa e os EUA estão mais lentos, o mercado asiático vem mantendo a chama acesa. Isso é positivo, mas também evidencia uma dependência crescente de variáveis exógenas. A empresa, mesmo reorganizada internamente, permanece sensível a movimentos de parceiros e mercados fora do seu eixo central de controle.
Em momentos de turbulência, nem sempre os riscos estão apenas nos números. Às vezes, o que compromete uma temporada inteira é uma falha de sinalização no meio do caminho — invisível para quem não está na pista, mas brutal para quem acelera.

Bicicletas? Quase fora do mapa
Outro ponto importante: o grupo Pierer (que comanda a KTM) está saindo quase por completo do mercado de bicicletas. Isso inclui tanto as bikes comuns quanto as elétricas.
Em vez de continuar insistindo nesse setor, a empresa decidiu descontinuar os modelos de bicicleta das marcas Husqvarna e GASGAS até o fim de 2025. Mas calma: isso não afeta as motos dessas marcas, que seguem sendo produzidas normalmente.
A única linha de bicicletas que vai continuar operando é a da marca Felt, voltada para nichos esportivos mais específicos. Em resumo: a empresa percebeu que fazer bicicleta não estava valendo a pena. Então resolveu focar no que sabe fazer melhor: moto.

Ainda falta a palavra final
Apesar desses números todos, a empresa deixou claro que o balanço auditado (ou seja, o oficial, com tudo checado) só deve sair em 28 de agosto. Por enquanto, são resultados preliminares. Serve como um sinal de que ela quer mostrar força, mas também ainda tem coisa para arrumar.
E apesar da data, a KTM já começou a moldar a percepção pública do seu novo ciclo. No dia 22 de julho de 2025, a empresa anunciou oficialmente o lançamento modular da linha offroad 2026. A revelação escalonada por categorias — motocross, minis, cross country e enduro — tem datas já previstas entre julho e início de agosto, numa cadência calculada que combina precisão e storytelling.
Mais do que novos modelos, o anúncio é carregado de mensagens de propósito – o que mostra uma forma clara de reposicionar a marca no imaginário dos pilotos, reconstruindo conexão emocional com quem valoriza consistência e entrega técnica.
O anúncio antes do balanço não é acidente. É sintoma de quem entende que a trama institucional antecede os números oficiais.

Conclusão: a KTM recobrou o fôlego, mas ainda não venceu a corrida
O que ocorreu nos bastidores não foi circunstancial — foi estrutural. Quando uma empresa desse porte suspende entregas ou posterga lançamentos, raramente se trata de um contratempo pontual. Trata-se, quase sempre, de decisões duras, calibradas para preservar o essencial: a continuidade.
A marca não colapsou. Longe disso. Mas optou por desacelerar para preservar sua integridade — como quem entende que, após uma lesão grave, acelerar demais pode comprometer a recuperação. O que se vê agora é uma reorganização deliberada, em ritmo estratégico, focada em retomar posição sem agravar fragilidades.
Para quem observa de fora, vale um lembrete fundamental: nem toda queda é colapso — e nem todo lucro representa vitória. Em mercados voláteis, o que realmente importa não é a euforia pontual, mas a consistência estratégica, a habilidade de adaptação e a inteligência de reconhecer quando acelerar… e quando frear com precisão cirúrgica.

A KTM não está no pódio. E agora, com menos ruído e mais foco, talvez volte a surpreender. O campeonato segue.
Ponto de leitura fina
Considerando o caos enfrentado pela companhia nos últimos trimestres, a condução da reestruturação e do reposicionamento institucional por parte da Pierer Mobility AG pode, sim, ser considerada uma jogada de altíssima competência.
Sem recorrer a euforias nem cortes abruptos de identidade, a gestão que acompanhamos demonstra frieza técnica para estabilizar o caixa, reestruturar passivos e preservar a integridade da marca.
Evitou a liquidação de ativos simbólicos, ancorou operações na Índia com apoio significativo e entregou uma recuperação contábil expressiva sem recorrer a fusões ou absorções hostis – o que parece ser quase um milagre dentro do cenário que se encontrava.
Ainda há zonas de silêncio: não conhecemos nada sobre o plano efeitva de retomada, o reposicionamento de longo prazo não foi apresentado, e a confirmação da continuidade plena depende do balanço auditado de agosto. Mas não se pode ignorar o mérito técnico de quem, em meio ao abalo, soube segurar o guidão, mesmo com as lesões em seus ombros.











