A soberania off-road em movimento nas Américas — com centro no Brasil profundo
É possível que nada simbolize melhor a intersecção entre asfalto e terra, velocidade e estrutura, impacto e propósito do que o rally dos Sertões.
Muito além de uma prova de resistência, o Sertões é hoje um ativo institucional brasileiro. Uma engrenagem complexa que articula pilotos, patrocinadores, poder público e comunidades locais — e que se aproxima do grau de maturidade de ecossistemas como o da Fórmula E ou do próprio Dakar, ainda que em um contexto muito distinto.
Esse artigo tem uma intenção clara: traduzir para o nosso leitor — apaixonado por máquinas, desafios e tudo que o off-road tem de vivo e instigante — a dimensão mais ampla de um evento que até hoje ainda circula em nichos muito segmentados. A proposta aqui não é outra, senão explicitar um funcionamento.

A largada como ritual logístico e institucional
O Sertões é um rally de etapas. E a cada edição, a chamada “largada” marca o início formal da competição — o primeiro dia em que as máquinas aceleram cronometradas rumo ao destino final.
Mas, mais do que um gesto, esta é uma operação logística de escala nacional.
Goiânia, capital de Goiás, volta a sediar a largada em 2025. É a 17ª vez que cumpre esse papel e não por acaso: a cidade possui estrutura hoteleira, histórico de envolvimento e localização estratégica. Mas o Sertões já largou de várias outras cidades — São Luís (MA), Palmas (TO), Petrolina (PE), Mogi Guaçu (SP) — e cada uma cumpriu uma função distinta: projetar o evento nacionalmente, ativar o turismo, firmar parcerias ou simplesmente revelar uma nova face do Brasil.
Para quem está acostumado com o motocross tradicional — em arenas, pistas fechadas e cronogramas definidos — a largada do Sertões é uma quebra de lógica. Aqui, o gate não cai: ele se move.
A cidade escolhida torna-se, ainda que temporariamente, a base de um movimento que reúne patrocinadores, imprensa, autoridades e competidores.

A largada é vitrine pública e engrenagem técnica ao mesmo tempo.
O que acontece entre a largada e a chegada?
O Sertões 2025 sai de Goiás e termina no litoral de Alagoas. O trajeto e a itinerância contam com mais de 2.500 pessoas em movimento: competidores, equipes técnicas, jornalistas, médicos, mecânicos, cozinheiros, especialistas em dados, comunicação e segurança.

A rota muda a cada ano. Isso transforma o Sertões em um organismo vivo: ele atravessa o Brasil e o reconfigura à sua passagem. Em cada cidade, escolas são mobilizadas, unidades de saúde recebem reforço, economias locais se movimentam. A cada edição, um pedaço do país entra no radar de investidores, patrocinadores, gestores e mídia.
Para quem está habituado ao calor das arquibancadas do Arena Cross ou à dinâmica intensa de um box de prova do Brasileiro de Motocross, a lógica do Sertões exige um ajuste de foco. O barulho do motor ainda está lá, mas ao invés de ecoar em um circuito fechado, ele percorre paisagens abertas, cruza biomas e arrasta consigo uma narrativa de território.

Esse dinamismo dá ao Sertões uma qualidade rara: a de ser, simultaneamente, espetáculo e plataforma. A comparação com o Dakar ou com a Fórmula E ajuda a entender o ponto — ambos são eventos que extrapolam a dimensão esportiva em larga margem e se convertem em modelos de ocupação estratégica e projeção institucional. O Sertões não copia esse modelo, mas compartilha do mesmo código: o esporte como base para um sistema.
E a engenharia por trás desses sistemas guarda riquezas pouco visíveis à primeira vista.
Quando a engenharia entra no grid
Nos bastidores do desempenho, existem decisões que nascem no projeto — não na pista. Um exemplo são os estudos de otimização topológica aplicados em veículos de rally como os SSVs (Side-by-Side Vehicles). Em competições internacionais, como o Dakar, já são comuns os testes que simulam, em softwares como Ansys e NTop, como diferentes tipos de chassi reagem a impactos, torções e vibrações.

Um estudo recente realizado por engenheiros da UPB comparou dois modelos de chassi — um spaceframe tubular, amplamente utilizado nas competições off-road como o Sertões, e um monocasco, estrutura ainda rara nesse tipo de prova, mas que serve como inspiração para soluções futuras mais integradas.
Os valores de rigidez torsional — que medem o quanto um chassi resiste a torções — podem alcançar, em aplicações de engenharia de ponta, níveis entre 40.000 e 60.000 Nm/°. Em termos simples: isso significa que seriam necessários de 40 a 60 mil Newton-metros de torque para torcer o chassi em apenas 1 grau — ou, se preferir imaginar, algo como a força combinada de 400 cavalos puxando uma barra de ferro até ela começar a ceder.
Esses números são encontrados em carros de luxo como o Porsche Cayenne ou o Bugatti Veyron, e servem como parâmetro de excelência para projetos otimizados. Ainda que SSVs dificilmente alcancem tais níveis, a engenharia aplicada caminha para maximizar a rigidez com o mínimo de material possível.
Se ainda melhor traduzirmos, para quem vive o off-road com o coração: imagine o chassi do seu veículo como o esqueleto que segura tudo no lugar — motor, rodas, piloto, sonho. Agora, pense se fosse possível deixar esse esqueleto mais leve, sem deixá-lo mais frágil.
É exatamente isso que os engenheiros descobriram: versões otimizadas que continuam tão resistentes quanto os de carros de luxo mencionados — respeitando os parâmetros técnicos definidos para os SSVs (Side-by-Side Vehicles) da categoria T4 da FIA, referência internacional também utilizada como base regulatória para os UTVs do Sertões.

É como se o carro respirasse melhor, pulasse mais longe e ainda fosse mais fácil de consertar — tudo isso sem perder a coragem de encarar uma rota bruta.
E por que isso importa? Porque quando esse tipo de inteligência entra na equação, o rally deixa de ser apenas um espetáculo de superação e se torna também um campo fértil de desenvolvimento técnico. Informações como essas ampliam o repertório de quem acompanha o Sertões com atenção — e abrem margem para algo ainda maior: a criação de pontes entre universidades, centros de engenharia e o universo off-road nacional.
E nesse sentido, vale mencionar que o processo de industrialização do off-road no Brasil está num ponto de ebulição. O contexto geopolítico atual — com redes globais de produção se reconfigurando e o olhar voltado para a autonomia industrial — abriu uma brecha rara.
Marcas nacionais como Pro Tork, Kinger e MXF estão hoje em solo tão fértil quanto aquele que viu nascer a Yamaha e a Honda no Japão do século passado. Só que agora, tudo acontece mais rápido — com acesso singular à tecnologia e com um público que não apenas consome, mas assiste, torce e participa.

E possivelmente o verdadeiro diferencial talvez esteja na temperatura do mercado interno: o tesão coletivo em torno do ecossistema esportivo – desejo real e encorpado.
Não é apenas consumo — é excitação em forma de cultura. E essa excitação move um tipo de energia conhecido: que não pede licença, apenas ocupa espaço.
Num país com tradição acadêmica e criatividade aplicada, o rally pode ser não só palco, mas também laboratório. E o Sertões, cada vez mais, mostra que sabe ocupar esse lugar.
Ecossistema profissionalizado
O Brasil é um país de vários mundos. Para o Sertões, o que já foi aventura virou plataforma: auditorias técnicas, controle de emissões, políticas ambientais, práticas de economia circular e estratégias de comunicação altamente especializadas.
Marcas entram não só para expor seus nomes, mas para ativar narrativas. Gestores públicos usam o evento como vitrine. A organização opera com padrões elevados, e a caravana se comporta como um miniestado móvel. Tudo isso sem deixar de lado a essência: competição, superação, engenhosidade.
Ao redor do mundo, eventos off-road têm se tornado também instrumentos de projeção territorial — vide a atuação da Arábia Saudita com o Dakar como peça-chave do seu programa Vision 2030 (cujo objetivo de diversificar a economia do país e reduzir sua dependência do petróleo).
No Brasil, o Sertões cumpre um papel autêntico, à sua maneira: o país é o próprio laboratório. O Brasil profundo é o cenário real, e isso transforma a competição em algo mais que uma prova: transforma-a em ferramenta de presença, ativação de redes e integração de cadeias produtivas locais.
Com base em tudo isso, podemos dizer que o Sertões não apenas testa máquinas — ele estrutura possibilidades.
Quando o Brasil é o território da prova
É possível — e necessário — enxergar o Sertões como mais do que uma corrida. A cada edição, o evento reafirma seu papel como radar da realidade brasileira, ocupando um espaço inédito entre os esportes de alta exigência técnica e os projetos de integração social e territorial.
Esse é um rally onde o Brasil não é só cenário: é argumento, é laboratório, é desafio contínuo.

Para o leitor do Show Radical, que acompanha com atenção o que acontece nos bastidores da performance, da mecânica e da competição, essa aproximação com os Sertões é também uma oportunidade: compreender como um evento pode se tornar vetor de um ecossistema inteiro — conectando marcas, tecnologias, pessoas, cidades, lideranças locais e estratégias de médio e longo prazo.
Falar dos Sertões, portanto, é também afirmar que o off-road brasileiro, quando tratado com inteligência e rigor, está pronto para operar em outra escala — uma escala em que desenvolvimento e competição não se excluem, mas se impulsionam mutuamente.
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