Quem olha apenas a tabela final do Brasileiro de Motocross 2026 vê um 3º lugar no MX1 para Fábio Santos. Para um piloto acostumado a brigar pelo título, o número pode parecer pouco. Para quem acompanhou a temporada de dentro do box, o resultado tem outro peso. É o que defende o fisioterapeuta da Yamaha, Lucas Costa, responsável pela reabilitação do piloto ao longo do ano.
“Hexacampeão brasileiro. Em 2026, terminou em 3º. E eu tenho orgulho desse 3º lugar.”— Lucas Costa, fisioterapeuta da Yamaha.
Quem é Fábio Santos?
Fábio Santos é um dos nomes mais vitoriosos do motocross nacional. São seis títulos brasileiros, três em cada uma das duas principais categorias, além do recorde de participações de um brasileiro no Motocross das Nações.
| Campeão MX2 | 2016, 2018 e 2019 |
| Campeão MX1 | 2021, 2023 e 2024 |
| Motocross das Nações | 9 participações, recorde entre os brasileiros |
| Brasileiro 2026 | 3º lugar no MX1 |
Fevereiro de 2026: queda na pré-temporada
A temporada começou a mudar antes mesmo da primeira largada. Em fevereiro, durante a pré-temporada, Fábio sofreu uma queda e fraturou a 6ª e a 7ª costelas. A pré-temporada que estava prevista na Espanha foi cancelada, e o piloto ficou no Brasil tratando na fisioterapia.
Foram dois meses sem subir na moto, com desconforto extremo nas primeiras semanas. Para Lucas, que além de fisioterapeuta é amigo próximo do piloto, aquele foi o momento de separar as duas funções.
“O Fábio é um grande amigo. Mas naquele momento ele precisava ver o fisio dele, não o amigo. Quem cuida do atleta tem que ter poder de decisão. Às vezes, proteger a carreira é tirar o atleta do momento.” — Lucas Costa.

Por que dois meses? A ciência explica
Para quem está de fora, costela quebrada pode parecer lesão simples. Para quem pilota, não é. Segundo estudo de Konttinen, Kyröläinen e Häkkinen, publicado no Journal of Strength and Conditioning Research em 2008, pilotos de motocross mantiveram cerca de 97% da frequência cardíaca máxima durante um teste de pilotagem, em uma prova de cerca de 30 minutos no limite.
Nesse período, o tronco trabalha o tempo todo: respira forte, absorve cada aterrissagem e gira em cada curva. Ou seja, cada respiração forte mexe na costela fraturada. Voltar antes da hora significaria pilotar com dor, compensar movimentos e aumentar o risco de uma nova lesão.
- 97% da frequência cardíaca máxima mantida durante teste de pilotagem
- 1 em 4 pilotos atendidos em centros de trauma dos EUA tiveram lesão no tórax
- 23% dos pilotos de outro registro de trauma tiveram pancada fechada no tórax
E a lesão de Fábio está longe de ser rara no esporte. Um levantamento de Fierro e colaboradores (Journal of Trauma and Acute Care Surgery, 2019), com mais de 31 mil pilotos de motocross atendidos em centros de trauma dos Estados Unidos, mostrou que 1 em cada 4 teve lesão no tórax. Em outro registro, analisado por Gorski e colaboradores (American Surgeon, 2003), 23% dos pilotos tiveram trauma fechado no tórax, o mesmo tipo de queda sofrida pelo piloto da Yamaha.
“Comum não quer dizer pequena. Osso colado não é piloto pronto.” — Lucas Costa
O preço escondido de ficar parado
O tempo longe da moto também cobra no condicionamento. A revisão de Mujika e Padilla (Sports Medicine, 2000) mostra que, em até 4 semanas sem treinar, o VO2máx já começa a cair rápido. Depois de 4 semanas, os ganhos recentes de condicionamento podem se perder por completo.
No motocross, essa perda pesa ainda mais. Estudo de Gobbi e colaboradores (British Journal of Sports Medicine, 2005) aponta que pilotos de motocross de alto nível têm mais força e potência aeróbica que os de enduro e rally. Por isso, Fábio largou o campeonato sem o condicionamento ideal.
Ritmo reconstruído etapa por etapa
A evolução apareceu ao longo do ano. Na abertura em Canelinha (SC), em abril, Fábio terminou em 7º. Na final em Brumadinho (MG), em setembro, já somou duas 4ª colocações. No fechamento do Brasileiro MX1 2026, garantiu o 3º lugar na classificação geral.
Em outubro, o piloto ainda vestiu a camisa do Brasil no Motocross das Nações, em Ernée, na França, sua 9ª participação na competição, recorde entre os brasileiros.

De fora, cobram. De dentro, é processo
Durante a temporada, não faltaram cobranças. Muita gente que não entendia o que estava acontecendo questionou o rendimento do Fábio, achando que ele não era mais o mesmo.
“Quem está de fora não vê a fratura, os dois meses sem moto e a pré-temporada perdida. Só vê o resultado. Por trás de tudo existem processos a serem respeitados.” — Lucas Costa
A cabeça também faz parte da volta. Pesquisas de Ardern e colaboradores (British Journal of Sports Medicine, 2013) e de Forsdyke e colaboradores (British Journal of Sports Medicine, 2016) mostram que a confiança, com pouco medo de uma nova lesão, está ligada a voltar mais rápido e ao mesmo nível de antes, enquanto medo e ansiedade influenciam o resultado da reabilitação. Para Lucas, o piloto precisa ser resiliente e se fechar no trabalho: aos poucos, tudo volta a fluir.
O que a temporada do Fábio ensina ao piloto amador
A experiência do hexacampeão serve de alerta para quem anda de moto no fim de semana e tem pressa de voltar depois de uma queda.
4 lições para o piloto amador
- 1 – Dor: Dor para respirar fundo é sinal, não frescura.
- 2 – Treino: Parado da moto, mantenha cardio e força sem impacto.
- 3 – Critério: Volte quando respira, aguenta impacto e pilota sem compensar.
- 4 – Decisão: Tenha um fisioterapeuta com poder de dizer não. Isso protege a carreira.
Lesão tem tempo. Respeitar é estratégia
2027 vem aí
Hoje, Fábio Santos está 100% recuperado e já mira a próxima temporada. Para o fisioterapeuta, 2026 deve ser lido como um ano de aprendizado e resiliência, não como um ano perdido.
“Ano de aprendizado não é ano perdido. Quando ele levantar a placa número 1 de novo, lembra dessa matéria.” — Lucas Costa










